segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Voo Insano.

«I've got a strong urge to fly
But I've got nowhere to fly to»
Estendo estas minhas asas que me faltam
As que espalho, ambicionando esse voo que me escapa
Contando de dia a dia os inserenos momentos rotineiros
Que me enlaçam em suas tentativas de vontade
E espero pelas quedas onde fujo do comum
Do ordinário que representas.
A quem não me quer escutar
Espirro maldições concretas
E cheias desse som sedento de voz
Dessas nuvens que me clamam deus dos inevitáveis
Através das estações de eterno Outono
Que deslizam pelos parques abandonados.
Mas gostava eu de poder ser Ícaro sem Dédalo
Sem a razoável voz da consciência
Que é peso morto em mim, insensato
E me arrasta para baixo,
Impedindo-me de voar na minha loucura.
É-me urgente deixar de ser eu.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Reconquista.

Alto! Levantai pois estandartes antigos,
Ultrapassadas interjeições de antiga glória.
Erguei aos céus as lanças-relíquias,
Repeti de novo cânticos já antes entoados.
Gritai! Estilhaços desses sonhos de outrora,
Onde bebíeis à mesa dos deuses.

Olhai como agora estais decandentes,
Menos que resquícios ensombrados,
Inferiores a canções lúgubres sem voz.
Vede como caís na desesperança,
Espiralando em ruínas sombrias de degradação.
Das escadas da fama descestes cambaleantes.

'Sperai, que ainda restam as memórias!
Das áureas vitórias sobram ainda recordações.
E o antes não é, jamais, o agora,
Mas nestes pedaços do que foi embrenhai-vos,
Retomai de novo estas armas jogadas em rendição,
Tomai uma outra vez esse fervor abandonado.

Sois capazes de reconquistar as canções perdidas?



[10.10.2008 flul]

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A Escada da Solidão.

A escada da solidão subo só.
Só, por entre os odores a velho e a tabaco e a autocarros antigos.
Sob a intermitência da lâmpada isolada.

Só, neste vazio de corpos e degraus caiados de idade,
nesta subida indecisa e incompleta.
Sempre para cima,
sem necessidade de pleonasmos redundantes,
rumo a estas planícies somente minhas.

Só, encaminho meus passos que hesitam e tropeçam
mas nunca recuam.
Que o caminho que deixo para trás,
como se atirado pelo ombro,
resume-se a um nada evanescente.

Só, nesta escada espiralada
que nunca segue senão a direito,
e cuja lâmpada intermitente nunca muda.

Só, sem tornar doridos os membros,
ou a respiração ofegante do cansaço,
enquanto o longe não se aquieta.

E subo só a escada da solidão.

domingo, 14 de setembro de 2008

Inconstância.

"your faith was strong but you needed proof"

Não conto os dias que passam
os que colhi nos tempos da juventude ansiada
e que deito agora para jazerem no crepúsculo,
neste entardecer que agracia os tons.

Se a mim não me enche a fé,
de que me servem os bastiões dourados
impregnados de crenças em que não creio?
Já passou o tempo da confiança.

Construindo muralhas de esperança
cairemos de mais alto
do alto dessa escadaria
do topo dessas muralhas de assassina pedra.

Mais tarde, na noite tardia
aplacamos as vontades com outros desejos,
os de ornar o mundo de que nos repugnamos.
Porque de noite a cor esvai-se

e não vemos a dor
nem o medo repleto de cobardia
ou sequer a ganância que temos como modelo.
Some-se a solidez do cansaço.

Se te disser que o dia é lento, as canções ainda fazem sentido?

terça-feira, 29 de julho de 2008

Surdez.

"But you don't really care for music, do you?"

Nem pela cantada pela noite,
aquela sinfonia de
grilos
brisas exaustas
amores jurados em
tentativas de compreensão.

Não te interessas pela música da ESCURIDÃO
que rompe pela da claridade; notas soltas -
negras!,
derivando do sabor da tranquilidade.

Ou te interessarias tu pela melodia
[que pesa no calor]
incansável do estio,
quando Prosérpina se junta à materna fertilidade
e os campos entoam canções cravadas de bagos?

Não te interessam os sumarentos versos
nem o gentil refrescar palrante da água
que se queda muda no Inverno.
Que te dizem os degelos do despertar
quando a mil vozes juntas sedução sua?

NADA!
Pois que ouves tu em surdez alheia?


sexta-feira, 18 de julho de 2008

Nestes campos que pisamos.

E se nestes campos que pisamos
já tiver calcorreado,
pés descalços em brandas flores,
quem antes de nós fora uno;

de entre fugas esguias à ceifeira.

Como agora somos,
pedaços dos dias despojados,
cansados de vitupérios
que nem nossos se diriam.

Jamais seremos "nós"
a partir deste momento votado à ignorância alheia.

Falta-me a foice, mas a tarefa é minha;

Assim o dito.

sábado, 21 de junho de 2008

Boa noite.

Boa noite, Lua.
Deixa que seja eu hoje a embalar-te.
Posso?
Cantar-te em voz rouca ao ouvido,
como um sussurro entre nós,
conversa séria de mulher para mulher.
Ou podemos quedar-nos em silêncio;
se o silêncio diz tudo, para que existem palavras?
Para o esconder?
Não interessa, não é essa a questão.
Ficam as promessas para trás,
largadas na berma da estrada
e resvalando em Pó,
junto às papoilas de uma estação esquecida.
É leves que viajamos agora;
olho-te de soslaio e vejo esse teu sorriso permanente.
Constante e fugidio, por vezes dir-se-ia o mesmo.
É este o amor entre nós:
eu olho e tu sorris,
como se fosse por olhar que tu sorrias.

Boa noite, Lua.
Salva em ti meus sonhos.

terça-feira, 27 de maio de 2008

O meu nome.

Fria.
Resolutamente gelada, sem o calor
sequer da melodia gasta.
E ainda, por demais, indiferente.
Presa pela minha cadência que
nunca, jamais, é monótona.

E ser vária!
Ser gota e gota e gota
x o quase infinito
e infiltrar-me, penetrando,
por toda a parte, olvidando-me
e dividindo-me! Estou e sou
aqui e aqui (ou no acolá próximo); e nunca,
[mais nunca que antes]
há em mim solidão, que ela esvai-se
como eu me esvaio,
por peles douradas,
e casas caiadas-pintadas
e telhados que vêem toujours o sol,
pelas imundas sarjetas onde
escorrem também os detritos do mundo,
ou pelas folhas que se diriam orvalhadas,
se estes pedaços diamantinos de mim
fossem menos e menores.

Eis-me! neste exaltar de mim,
celebro-me gloriosamente
ao escorrer-me para o meu terminar.
Por agora (me!, me!, me!)
transformo-me e sou una e sou partes
que se descaem e me desfazem
e me arrancam bocados.

Plim plim plim plim
que ecos doces que me abalam
ouvidos que não tenho.
Sou-me, enquanto desço e deslizo e serpenteio
neste êxtase de quase delírio,
"Lucy in the sky with diamonds",
mas sem saber quem é esta Lucy,
e do céu caio eu, desmanchando-me.

O meu nome é chuva.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Espécie de discussão filosófica.

(Conversa numa wiki criada pela Ana para uma aula de tic II, e transferida para aqui por ser demasiado preciosa para ser perdida.)

Muahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha!

Ou spam.

Ou um exemplo de vandalismo. Nada como mostrar o que não se deve fazer…

… quando se pretende fazer uma página medíocre. Se se quiser uma perfeita, esta serve.

No fundo, tudo pode ser perfeito. Basta escolher o que se deseja que seja perfeito. Assim sendo, esta página é mediocramente perfeita.

No entanto, a perfeição é única e somente uma pessoa que dispensa apresentações, pois toda a gente sabe que não existe, mas que pensa, portanto, segundo Descartes, existe.

Pensa, mas deixa levar-se pelos sentimentos. Não há nada de racional no egocentrismo. E não esqueçamos quem era Descartes: um racionalista convicto.

Ah pois, mas como egocêntrica a perfeição usa o que sabe a seu favor, acreditando só no que lhe convém.

E apercebe-se, então, de que não é perfeita, por mais que queira acreditar no contrário, até acordar do pesadelo, quando vê, com alívio, que afinal ainda é a perfeição e perfeita (muahah! redundância! ou pleonasmo).

Redundâncias… Pleonasmos… Só coisa que a perfeição não necessitaria se realmente fosse perfeita. Afinal parece que, de forma até paradoxal, o sonho é o único universo em que ela é realmente perfeita.

É perfeita em todos os universos, ou não seria sequer perfeita. Sendo-o, todas as maneiras em que se expressa também o são, já que não passam de formas de expressão sonhadoras.

Shiu, sua vândala! x) Perfeição que é perfeita é perfeita, se eu tenho uma imagem de perfeição ela tem de existir, a perfeição sou eu. Eu penso, logo, existo. Logo, a perfeição existe!

É verdade que pensas, logo, existes. No entanto, quem existe és tu e não a imagem que crias de ti própria. É por isso que não és a perfeição. Porque a tua imagem é perfeita, mas tu não.

Mas a imagem que tenho de mim é imperfeita. Ou não seria eu. Apesar disso, não deixo de ser perfeita. Já não faço a mínima ideia do que ando para aqui a dizer.

Nem eu, embora continue convencida de que não és perfeita.

No entanto, há algo que nenhuma de nós pode negar: esta página é perfeita. Um autêntico hino ao vandalismo de wikis.

Pensava que achavas que a perfeição não existia. Mas sim, é perfeita. Viva o vandalismo de wikis!

Mas eu acredito na perfeição, apenas não a vejo em ti.

Enfim, parece-me ser altura de acabar com esta conversa de vândalas pseudo-filosóficas. (É com hífen? Se não for tens aí um botão que já conheces muito bem.)

Conhecerei? Ou será o meu espírito? Oops, é para parar.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Auto-Retrato Desafinado

Era fácil perceber que não estava concentrada. Via como caminhava devagar, olhando vagamente para o chão do passeio e para o céu nublado, esperando – quem sabe o que esperava? Aparentava ser mais pequena do que era, a cabeça várias vezes enterrada no cachecol, como se procurasse ocultar-se e desaparecer. Tornar-se invisível, decerto, era o seu maior desejo. Dos cabelos pouco se via, a maior parte cobertos pelo gorro que nada tinha a ver com o resto da sua indumentária. Puxava-o constantemente, como se temesse que ele fosse cair ou voar com o vento forte. As mãos – quão deliciosamente pequenas! – quando não se encontravam a ajeitar o gorro, escondiam-se no calor reconfortante dos bolsos do casaco preto comprido, demasiado largo para si. Uma pequena mochila pesava-lhe as costas, aparentemente mais carregada do que seria suposto.

Um pé acertou com um splash! numa pequena poça de água, resquícios de uma chuva que parecia querer voltar. A bainha das calças já estava completamente encharcada – talvez estivesse a fazer pontaria aos mini-lagos no seu caminho. Os seus lábios entreabriam-se; a melodia (se se poderia chamar melodia a tal desafino) contrastava com o silêncio que os outros transeuntes pareciam ter imposto a si próprios.

Um redemoinho de folhas cercou-a, em tons amarelos de Outono decadente. Com um gesto exasperado, repentino, arrancou o gorro da cabeça, guardando-o na já atafulhada mochila. Os cabelos despenteados, de meios caracóis escuros (castanhos!) ondularam, demasiado pesados para se agitarem com o vento. Parada no semáforo, olhou para as árvores com um sorriso. Mas adivinhar-lhe a mente era – tarefa vã – impossível. Ajustou os óculos na ponta do nariz, desatentamente, e o sorriso desmanchou-se, devagar.

Atravessou a passadeira num passo rápido, apressado, reflectindo na sua caminhada os sentimentos efervescentes que a agitavam interiormente.

E, sendo quem era, foi nada mais que a voz desajustada do silêncio corrupto citadino, desafinada.


[Já antigo.]