sábado, 5 de novembro de 2016

tanto

já carregaste tanto
por tanto tempo
já foste tudo e tiveste nada.
e agora és chamada por quem não vejo.

talvez a verdade esteja nas palavras
que não dizes, ou talvez
nas que não lembras.

é uma viagem que fazes só,
a mais longa
a mais lenta
a mais longínqua.
para mim, que carrego as tuas mágoas,
a mais dolorosa.

esquece, que eu lembro
enquanto souber lembrar.
nas mentiras que já são honestas
disfarço a saudade.

já carregaste tanto.
foste o mundo.
agora é tarde;
carrega apenas as lembranças,
as que te fazem menina.

é tão tarde;
dá-me o teu braço
(sei que não gostas)
e vamos. eu leio-te.

já foste o mundo.
eu sou o resto.

domingo, 3 de julho de 2016

é uma emboscada, a noite.

é uma emboscada, a noite.
é o morrer de um cansaço em pedaços,
de uma angústia dorida de arrastada pelo dia.
é a violência das descobertas feitas na escuridão
dos soluços quando não há mais palavras
nem gestos
nem sonhos ou
presenças.
há este vazio de solidão e esta solidão vazia
há falta de tudo e nada chega.
há gritos que morrem antes de nascerem,
quando se sufocam em lágrimas e remorsos.
há o conforto doloroso de que o dia chega.
amanhã.
outra vez.
do início.


24/04/2014



sábado, 14 de fevereiro de 2015

enquanto espero que esta hora passe

enquanto espero que esta hora passe
e me encontre à beira do caminho
tic
enquanto desvivo sonhos e pausas de ser
e troco suspiros por vozes manchadas
toc
enquanto sinto mais que sopros
menos que toques
tic
enquanto fecho os olhos e há mais em mim agora
toc
e já não sei que faço ou por que espero
e a hora passou e aqui me quedo
salva do tempo por negligência minha
coleccionando silêncio e minutos gastos,
enquanto espero que esta hora passe.

domingo, 10 de março de 2013

Há um silêncio profético

há um silêncio profético no cair da noite.
vem, e diz-me
tu não sabes viver, que viver é mais
e isso que fazes é longínquo como o horizonte,
conta-me em tom seguro.
mas eu já o sei,
conheço de cor todos os passos que não dou
e os caminhos por onde não me levo.
mas a noite chega e relembra-mos com histórias
e encontros despertos em decadência.
adormeço com a mente entrançada em contos
com finais infelizes.

[03.12.2012]

quarta-feira, 6 de março de 2013

Chove

chove,
como eu choveria se a minha alma
fora carregada de instantes vazios que despejo
qual imaculada certeza no mundo.
chove,
como eu choveria se soubesse que o tempo
se gasta em traços mal-amados
cobertos pela insanidade dos risos.
chove,
como eu choveria se houvesse em mim
razões para chorar.
mas eu sou um abismo de tristezas
pintadas a nada.
chove,
mas a chuva cai sem mim.

[20.11.2012]

sábado, 22 de setembro de 2012

cá dentro

as vozes estão todas dentro de mim
vêm de alegrias e comoção,
recheadas de auspícios de boaventura
— são arautos de medo
e estão todas cá dentro.
orladas de pérolas choradas
de abismos de tempo perdido
de sonhos gastos
que nunca tive.
estão cá dentro, com garras e morte
e gritos que cá ficam
porque estão cá dentro
e cá dentro ficam

terça-feira, 10 de julho de 2012

amarras

preciso de uma realidade forte e suave
de gestos com palavras que me toquem
me prendam
me soltem
de desejos, não de sonhos
de mãos que me sustenham aqui
não me larguem para o céu

mas eu sei ser sozinha
e as amarras que preciso
prendo-as eu
por ora

(não chegam)

01.07.2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

não estás aqui

há todos os espaços que precisam de ser cheios
e as palavras que não chegam nem lhes tocam
nos vazios onde cresce a noite
e nas horas quando se evaporam desejos
e não encontram voz em sussurros

quando os gritos são ecos
serás és foste foras
nunca serias ou agora
os olhos fechados ao quarto desenham clausuras
mas já não estás aqui
por que não estás aqui?

é a tua mão que oiço nos dias escuros
estendo a minha
e perdi-te.

por que não estás aqui?

domingo, 4 de março de 2012

esta vida é uma morte lenta

esta vida é uma morte lenta
de indiferença em indiferença
até uma apatia maior
abulia da alma com o corpo.

esta vida é um crepúsculo
sei-o bem de cinzentos
cores do meu coração
cores do âmago do mundo.

esta vida, como todas, é não sentir.
é fenecer como as flores
e perder todos os modos de amar
enquanto os anos são nossos.

esta vida é um espelho sem nós
que não há lugar para ser
nesta vida que não nos tem.

esta vida é um abismo e
nada.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

pedem-me palavras

pedem-me palavras que não tenho
e sorrisos que perdi
quando era de todas as cores e o dia
era meu.
as palavras - talvez nunca as tenha tido
- eram trejeito a solavancos de vivências
e bálsamos para maleitas de espírito.
os sorrisos, esses, deixei-os pela estrada
com as flores que nunca colhi.

guardá-las-ei para quando todas as cores forem minhas e
o dia for meu
de novo